domingo, 17 de maio de 2020

Dois meses em isolamento social

Dois meses de isolamento social, dois meses enfrentando uma realidade que nunca imaginei que pudesse acontecer. A curva de novos casos e mortes não para de crescer e é frustrante cumprir as orientações de médicos e cientistas enquanto as pessoas continuam brincando com a roleta da morte porque "não conseguem ficar presas em casa". Na minha cidade praticamente tudo está fechado, lojas, cinemas, bares, restaurantes, praias e parques. Mesmo assim, a prefeitura tem feito ações de fiscalização e fechado lojas que comerciantes teimosos insistem em manter abertas. Padarias, supermercados, farmácias e postos de gasolina continuam funcionando e parece que viraram locais de encontro da população, estão sempre lotados. Sair apenas para o que é necessário não seria tão arriscado se todos usassem o mesmo princípio. Como não é possível confiar no bom senso das pessoas, cada ser humano na rua é um potencial risco de contaminação e mesmo mantendo a distância mínima recomendada, volto para casa com os nervos em pandarecos... O vizinho da minha mãe continuou passeando, bebendo cerveja com os amigos e ignorando qualquer sugestão de isolamento social. Foi contaminado e passou uma semana no hospital lutando para respirar. Teve sorte e voltou para casa, espero que recupere a saúde e a responsabilidade. A primeira pode ser tratada, a segunda não. Minha filha voltou ao trabalho com redução de carga horária e vários procedimentos de segurança, quando ela chega em casa é uma operação de guerra: roupa direto para a máquina (já tira a roupa na entrada), álcool nas maçanetas e no chão, banho imediato. Quando preciso ir ao mercado, a mesma coisa: desinfetamos as roupas, a pessoa e as compras.

Enquanto o mundo luta para salvar a sua população e a economia, vivemos uma situação no país que oscila entre o patético e o assustador. Estou cansada de assistir esse espetáculo mambembe de quinta categoria que nos arrasta para um buraco sem fim. A pandemia já nos exaure mentalmente, ter que conciliar o medo pela sobrevivência com o medo das ações de um genocida ignorante, é demais para mim!

O trabalho continua dobrado, iniciamos o processo de formação dos professores no Google Classroom e já temos mil professores inscritos para dar conta (vou publicar uma postagem só sobre o curso). Não é uma formação fácil, as pessoas estão com medo da realidade que enfrentamos, estão confusas, ansiosas e sem a menor ideia do que fazer... Não basta apenas ensinar como usar as ferramentas, é preciso ter paciência, compreensão e, sobretudo, empatia. Felizmente, isso não tem me faltado durante esse período difícil de quarentena.

sábado, 9 de maio de 2020

Fim da sétima semana de isolamento

Terminamos a sétima semana de isolamento com o pior cenário da pandemia se confirmando no país. Algumas cidades anunciam a necessidade de lockdown enquanto o homem desprezível que está sentado na cadeira presidencial anuncia a realização de um churrasco para mil pessoas. Como diz a atualização do ditado, de onde menos se espera, é de onde não vem nada mesmo. Só podemos contar com as políticas de contenção dos governadores e com o bom senso da população que começaram a ver conhecidos e familiares perecendo com a doença e, infelizmente, só assim perceberam a gravidade da pandemia. Semana passada, com o feriado de primeiro de maio, muitas pessoas pensaram que seria uma boa ideia viajar para as cidades praianas. Os prefeitos precisaram fechar as praias para conter o volume de pessoas que circulavam na cidade, mas mesmo assim, as pessoas lotaram os supermercados, mercearias, farmácias e açougues. Calculem a explosão no número de casos quando essas pessoas retornarem para as suas cidades no interior, muitas delas sem um único leito de UTI. Nós saímos muito pouco de casa e quando precisamos ir ao banco ou ao supermercado, usamos máscaras e nos besuntamos de álcool, evitando tocar em qualquer superfície e mantendo distância de qualquer ser humano. Mesmo com esses cuidados, sempre fico sobressaltada, com taquicardia e sintomas de ansiedade. Volto para casa exausta e passo o dia tentando controlar o meu medo de ter sido contaminada...

A constatação de que não voltaremos tão cedo para qualquer situação próxima da normalidade, começou a servir como motor para a universidade pensar em caminhos para retomar as atividades de aula remotamente. Vamos avançando devagar, mas sólidos porque será inevitável pensar em novas formas de aprendizagem durante a pandemia e depois dela. Especialistas já falam em dois anos de movimento alternado entre isolamento social e retorno parcial das atividades. Enquanto não houver uma vacina para imunizar a população, teremos que conviver com o vírus e reinventar a forma como trabalhamos, consumimos e nos relacionamos com as pessoas. Semana que vem começaremos os cursos de formação dos professores da própria universidade e ainda veremos muitas inadequações no uso das tecnologias na Educação tanto nas escolas da Educação Básica quanto no Ensino Superior. Lamentavelmente, as possibilidades do uso das tecnologias digitais na mediação pedagógica não foram consideradas nos tempo de normalidade e, atualmente, poucos professores e gestores possuem a apropriação necessária para implementar novas estratégias. Terão que aprender fazendo e, embora seja desgastante e extremamente penoso, é um movimento inevitável. Felizmente, ainda podemos caminhar juntos e os professores especialistas no tema estão trabalhando muito para encontrar caminhos que ajudem a todos neste momento.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Marcha Virtual pela Ciência no Brasil

Amanhã é dia da Marcha Virtual pela Ciência no Brasil. "A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) convida todas as entidades, instituições e associações científicas e acadêmicas de todo o País, todas as entidades civis, professores, pesquisadores, estudantes e todos os amigos da ciência para participar ativamente da Marcha Virtual pela Ciência no Brasil no dia 07 de maio. Com atividades transmitidas pelas redes sociais ao longo do dia, o objetivo da manifestação é chamar a atenção para a importância da ciência no enfrentamento da pandemia de covid-19 e de suas implicações sociais, econômicas e para a saúde das pessoas. Veja como você pode participar da Marcha Virtual pela Ciência no Brasil: enviar depoimentos em vídeo ou texto, fortalecer os dois tuitaços que serão realizados no dia, participar dos painéis online, incentivar sua instituição a criar um evento digital, compartilhar em suas redes sociais: o importante é que todos façam parte desse Pacto pela Vida que será realizado no dia 7 de maio!" A UFPE também participará da marcha e para ver a programação é só clicar aqui. Participe!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Fim da sexta semana de isolamento

Quase um mês e meio de isolamento e suspensão das atividades acadêmicas e já começo a ficar impressionada com a capacidade de adaptação do ser humano. Claro que ainda existem pessoas que resistem e não querem aceitar que o mundo mudou e todas as relações terão que ser reinventadas. Algumas pessoas insistem em reclamar de bobagens, outras já perceberam o profundo nó em que a vida se transformou e iniciaram o seu processo de adaptação. A cada semana que o isolamento se impõe e o número de mortes se anuncia, temos hoje mais de 66 mil casos confirmados e 4.043 mortes, o garrote da realidade aperta um pouco mais e vamos buscando saídas possíveis para lidar com tudo isso sem perder a sanidade. O que era impossível em março já se torna plausível hoje e viável amanhã. Usar máscaras nas ruas e nos estabelecimentos que ainda estão abertos não é mais uma escolha, é lei. As escolas estão se reorganizando e buscando alternativas, o comércio já aceita pedidos de qualquer produto e entrega em casa sem custo. Temos promoção de comida em restaurante chique, descontos e mais prazo para realizar pagamentos. Todo mundo começa a reorganizar a vida em outros parâmetros já que a vida antiga não é mais possível. Na UFPE, faço parte de um grupo chamado SPREAD que está pensando em soluções, organizando materiais, pesquisando plataformas e produzindo cursos, com o desafio urgente de encontrar alternativas e formar pessoas. É um esforço coletivo de pessoas que estão doando o seu tempo e seu conhecimento para ajudar a mudar o cenário sombrio que vemos hoje. E vamos nos adaptando, torcendo para que as soluções funcionem e que possamos aprender alguma coisa com tudo isso. Tenho visto correntes de solidariedade surgindo e muita repulsa por qualquer gesto irresponsável que afete o coletivo. Vamos nos humanizando de alguma forma porque não existe saída que não seja coletiva, não existe dinheiro que garanta imunidade e salvação. É certo que o número de pessoas pobres que morrem é maior, mas tampouco os ricos escaparão ilesos. Termino a semana de isolamento com a percepção apurada e parece que algo está mudando... Termino esse post com o registro do belíssimo encontro do grupo de pesquisa Gente do Edumatec da UFPE. Algumas pessoas percebem a música, eu percebo a esperança...

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Fim da quinta semana de isolamento

A última semana foi menos tensa, apesar dos números assustadores com a expansão da doença e o aumento exponencial das mortes. A cada momento ficamos menores e mais inseguros diante de um cenário caótico com políticas desencontradas ancoradas em muita suposição e pouca ciência. O volume de trabalho não diminuiu, embora algumas tarefas tenham sido concluídas com sucesso. As universidades começaram a pensar em alternativas para a realização de aulas remotas e isso implica em muito trabalho e novas configurações para a prática docente. Na realidade, a cada dois passos que damos para frente, andamos três para trás porque os processos burocráticos e as práticas dos professores foram construídas e somente para o presencial. Temos também a dificuldade de compreensão dos professores sobre o uso de tecnologias como instrumento de mediação para a aprendizagem está fundamentada em preconceitos com a modalidade a distância. São muitos desafios e inúmeras possibilidades, mas penso que quanto mais tempo demorarmos para enfrentar a questão, mais difícil será para organizar uma proposta viável de trabalho remoto para as atividades de graduação e pós-graduação. Independente dos diferentes posicionamentos sobre a adesão ou não ao formato remoto para retomarmos as aulas, penso que o contexto da pandemia torna qualquer previsão impossível. No momento atual, não temos a menor possibilidade de voltar para a nossa rotina nos próximos meses. Uma previsão otimista indicaria o retorno no final do ano, mas provavelmente não teremos aulas presenciais antes do próximo ano. Isso significa que teremos que pensar em alternativas para não suspender completamente as atividades de aula durante um tempo muito longo. Esse distanciamento das atividades acadêmicas tem implicações na vida dos alunos que precisam ser consideradas com cuidado, desde o atraso no prazo de conclusão do curso, até questões relacionadas com o pagamento de bolsas. Além das questões acadêmicas e financeiras, temos também o aspecto relacionado com a saúde mental dos alunos em isolamento social. A insegurança em relação ao contexto atual e ao futuro, comprometem o equilíbrio mental das pessoas, especialmente os alunos que estão em processo de formação. Esse entendimento foi adotado por universidades de outros países que também foram impactados com a pandemia e buscam alternativas e caminhos para desenvolver novas abordagens e dar continuidade ao processo formativo em seus diferentes níveis. Felizmente, estamos caminhando nessa direção e sabemos que temos muito trabalho pela frente, mas é preciso enfrentar esse momento com coragem e muita disposição. Se o futuro é incerto, cabe a nós trabalhar para viabilizar o melhor cenário possível.

domingo, 19 de abril de 2020

Fim da quarta semana de isolamento

Seguimos em isolamento, embora seja visível que muitas pessoas já voltaram a circular nas ruas, mesmo com todo o comércio fechado e os ônibus sem circular. Foi uma semana difícil porque a realidade da pandemia deixou de ser apenas números e começou a ganhar nome. Meu amigo e orientador de pós-doc que passava uma temporada no Brasil, não conseguiu embarcar para Portugal porque os voos foram cancelados. Acompanhamos a angústia dele em não saber se conseguiria voltar para casa em um momento tão delicado. Ficamos apreensivos por sua idade e pelas condições de acesso ao serviço de saúde. Quando acessei o site da embaixada para buscar alguma orientação, li uma nota de aviso informando que todos os cidadãos portugueses deveriam do país o mais rápido possível. Várias embaixadas estão recomendando a mesma coisa, inclusive de países com muitos mais casos notificados do que o nosso e mais uma vez surge o medo: o que eles sabem que nós não sabemos? Na véspera do domingo de Páscoa, precisamos usar os serviços de um amigo que está com o seu negócio fechado. Fomos atendidos rapidamente e ao chegar em casa, recebi uma mensagem de agradecimento no celular. Ele disse que nós nunca poderíamos imaginar o quanto o ajudamos naquele momento e que ele desejava uma Páscoa abençoada para nós. O desespero implícito naquela mensagem de agradecimento foi um soco no estômago e desvelou a realidade de muitas pessoas que dependem da prestação de serviços. É importante registrar que o nosso amigo, com todo o seu desespero financeiro, não é a favor do fim do isolamento e sabe perfeitamente a gravidade da situação. No começo da semana, soubemos que uma aluna da pós-graduação perdeu o filho de 17 anos, vitima da COVID-19. Quatro dias depois, os jornais noticiaram a morte de um ex-aluno do Edumatec de 42 anos, também vítima da doença. A realidade do peso da pandemia caiu sobre nós e o sentimento de impotência e angústia foi enorme enquanto eu escrevia uma nota de pesar para publicar no site do programa. Assistimos incrédulos as manifestações odiosas de uma elite ignorante que quer seus serviçais de volta enquanto desfilam isolados em seus carros caríssimos. Sabemos que a situação é muito mais grave e que os números não retratam a realidade em função da subnotificação e da falta de testes. Já sabemos que o ano letivo está perdido e que vamos demorar anos para retomar o que chamamos de normalidade. A única coisa que não sabemos é como as relações interpessoais e a dinâmica do cotidiano irão se remodelar diante de tantos desafios. A esperança é que sejamos melhores, mais solidários e empáticos, mas o receio é que nos tornemos o nosso maior pesadelo. Fiquem bem, fiquem em casa!

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Fim da terceira semana de isolamento

Ao fim dessa terceira semana de isolamento, o estresse se instalou por diferentes motivos, colocando na berlinda a minha capacidade de ser equilibrada e, sobretudo, paciente e educada. Tem sido difícil lidar com a falta de flexibilidade das pessoas que gerenciam a burocracia, seja por ignorância, necessidade de poder ou burrice mesmo. Recebi na mesma semana dois pedidos que pareciam ter saído do armário de Nárnia e não de uma situação de pandemia: um pedido de ata de reunião presencial quando todos sabem que a universidade está com as atividades suspensas e a exigência de uma assinatura na ata de defesa de mestrado do examinador que participou virtualmente da banca. É preciso apelar para a paciência e o bom senso nessas horas e eu estou apelando muito... Meu apelo é para que as pessoas entendam que vivemos tempos completamente fora da normalidade e que estamos em guerra contra um inimigo letal que não podemos ver e do qual o presidente do país faz piada, dizendo que ele não existe. Não é possível que a burocracia vá causar mais estresse aos nossos professores e alunos além da carga extrema que sofremos todos os dias ao ver que a contaminação se multiplica e o número de óbitos só faz crescer. Tive uma crise de pânico no supermercado na última segunda-feira, é difícil ver as pessoas sem tomar qualquer precaução, insistindo em se aproximar mais do que o necessário e agindo como se não houvesse nenhum risco em andar pelas ruas. É angustiante saber que as manicures do pequeno salão perto da minha casa estão passando dificuldades e sem perspectiva de qualquer ajuda. Por fim, é arrasador receber a notícia de uma aluna nossa que perdeu o filho de 17 anos por insuficiência respiratória, mesmo que o resultado para o COVID-19 tenha sido negativo. Estamos condenados não apenas a ficar dentro de casa por um longo período, mas a viver com medo, ansiosos e inseguros sem saber o que o futuro nos trará. Vamos fazendo o que é possível, ajudamos um, nos preocupamos com o outro, oferecemos apoio ao terceiro, confortamos quem precisa... Fazemos tudo isso sem ter qualquer resposta sobre como será o nosso mundo amanhã. A única coisa que eu sei é que é impossível olhar para trás.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Fim da segunda semana de isolamento

Chegamos a fim da segunda semana de isolamento social com 4.579 casos confirmados e 159 mortes.As pessoas começaram a reagir mal ao confinamento e muita gente, inspirada no péssimo exemplo do presidente demente que temos, voltou a circular nas ruas. Nos grupos de WhatsApp, e-mail de trabalho e entre os "amigos" do Facebook e outras redes sociais, as pessoas começam a transbordar o seu desequilíbrio com provocações, confrontos, brigas e retiradas triunfais ou estratégicas, além de textos religiosos ou de autoajuda. Não tenho tempo para isso, o trabalho continua me consumindo e lentamente as tarefas são finalizadas, enquanto surgem outras, como se algum portal dimensional maligno estivesse aberto trazendo não apenas o vírus, mas também toneladas de trabalho. Estou trabalhando mais horas agora e as mensagens urgentes surgem o tempo todo: aos domingos, durante o almoço ou nas primeiras horas da manhã. Nada existe horário definido para nada e todos parecem ter perdido a noção da funcionalidade dos dias úteis e a utilidade do horário comercial. Enquanto o caos se anuncia nas matérias dos jornais e no comportamento inacreditável do governo federal, conseguimos implementar as bolsas dos alunos de mestrado e doutorado, realizar as bancas virtualmente, preencher relatórios e alimentar sistemas. Não saio de casa para nada além do supermercado e farmácia, por aqui as ruas estão vazias e melancólicas. O serviço de entrega de comida continua funcionando a pleno vapor, garantindo a sobrevivência dos restaurantes e entregadores. Por enquanto os preços estão caindo com uma enxurrada de promoções para conquistar os clientes, mas é difícil saber se esse movimento vai durar. Tentando manter um pouco de sanidade e equilíbrio, tenho feito aulas de Yoga com a minha professora usando o Skype como ferramenta e amanhã farei o mesmo com os meus alunos de Yoga do CE, espero que seja uma experiência boa para todos. É hora de encontrarmos meios para apoiar os outros e, mesmo quando não somos solicitados, precisamos buscar uma forma de atuar positivamente e coletivamente. Como disse o biólogo Atila Iamarino, pedir o fim do isolamento é querer voltar para um mundo que não existe mais. O nosso mundo com liberdade para ir para qualquer lugar, para planejar uma viagem, uma festa, um casamento ou uma mudança de vida, não existe mais. O mundo que virá dependerá muito das pequenas ações de cada um de nós e é hora de cada um pensar em como fazer a sua parte. Fiquem em casa, fiquem bem.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Fim da primeira semana de isolamento social

Em mais de meio século de vida, assisti filmes e li vários livros que descreviam cenários de um futuro distópico, com a humanidade enfrentando o seu fim e poucos sobreviventes tentando reconstruir as estruturas sociais e materiais. Acredito que o último filme tenha sido "Interestelar" e a praga retratada no filme estava relacionada com o ambiente, não com as pessoas. São situações que deveriam ficar no campo da imaginação e nada nos preparou para a angústia de ver esse cenário se tornar realidade. A cada notícia que é publicada, aumenta o nível de apreensão e passamos a temer, diariamente, não apenas pelas pessoas que amamos, mas por todos que enfrentam a pandemia e que se tornam vítimas, direta ou indiretamente, dela. As notícias inicialmente chegaram devagar e, nós que trabalhamos com um público grande, começamos a nos preocupar. É alarmismo? É real? É preocupante? Trabalhar em um local com muitos cientistas fez com que soubéssemos antes da maioria das pessoas do cenário sombrio que estava por vir. Quando você presencia o pânico de um epidemiologista que passou a maior parte de sua vida adulta cultivando cepas de vírus perigosos no laboratório, é hora de começar a se preocupar... Entre a primeira nota oficial afirmando que não havia necessidade de suspensão das atividades acadêmicas e o cancelamento de praticamente tudo dentro da universidade, se passaram dois dias, com uma reunião de reitores em pleno domingo à tarde. Dois dias! Estou em casa desde o dia 16, com algumas saídas rápidas para ir ao banco, farmácia e supermercado. Nos primeiros dias da semana ainda fiz algumas coisas rápidas em ambientes maiores (ir ao banco dentro do shopping porque eu precisava ir em dois bancos diferentes), buscar remédio e fazer uma aula de yoga. As notícias pioraram, foi detectado o primeiro caso aqui e o governo estadual fechou shoppings e proibiu qualquer tipo de aglomeração. As lojas de rua, bares, restaurantes, academias e a fábrica onde minha filha trabalha continuaram funcionando. Hoje, apenas sete dias depois das primeiras medidas, suspenderam a circulação de ônibus, apenas os serviços essenciais estão funcionando e a fábrica fechou. No meio desse cenário de incertezas e informações desencontradas, a universidade bloqueou os ambientes virtuais de aprendizagem dos nossos cursos de graduação a distância! A nossa única forma de comunicação com os alunos foi bloqueada e isso me deixou tão furiosa que não tenho nem palavras para descrever... Só quem não entende lhufas sobre a dinâmica da EaD poderia considerar isso uma ideia razoável, os nossos alunos estão no interior, se sentem inseguros e nós professores temos um papel fundamental para manter a tranquilidade de todos. Eu consegui colocar uma última mensagem explicando a suspensão das atividades e orientando os alunos em relação aos prazos das atividades, mas não sei se alguém teve alguma dúvida. A justificativa oficial é que todas as atividades acadêmicas estão suspensas, inclusive a EaD. Eu sou bem tranquila em relação ao trabalho e dificilmente alguma coisa profissional consegue me irritar: já lidei com colegas desleais, chefes incompetentes e funcionários irresponsáveis. Eu não fiquei só irritada, eu fiquei furiosa porque penso que é inadmissível o rompimento das relações entre professores e alunos, sobretudo quando os alunos estão distantes e fragilizados. Não adianta apontarmos para os erros do governo federal que atua de forma omissa, autoritária e cruel se não identificamos esses mesmo elementos nas nossas relação hierarquizadas quando o momento exige colaboração, cooperação e, sobretudo, empatia. Minha função como professora vai além de transmitir conteúdos e desenvolver o processo de aprendizagem, é minha obrigação proteger os meus alunos e garantir que eles estejam informados e tranquilos. Enquanto leio documentos com as palavras "proibido, suspenso, impedido etc", continuo pensando que é possível uma universidade humanizada em todos os níveis e estou determinada a trabalhar muito para isso!

sexta-feira, 20 de março de 2020

Atividades acadêmicas suspensas na UFPE

Todas as atividades acadêmicas estão suspensas na UFPE do dia 19 até o dia 31/03. Segundo as informações da ASCOM UFPE, "A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e as universidades que compõem o Consórcio Pernambuco Universitas e os Institutos Federais do Estado de Pernambuco assinaram conjuntamente a decisão pela suspensão de atividades acadêmicas presenciais no período de 16 a 31 de março. No comunicado, há indicativo que as atividades remotas, os serviços essenciais e ações administrativas específicas seriam definidas por cada instituição. As razões da suspensão têm por objetivo reduzir a circulação das pessoas e colaborar nas medidas de combate à propagação do Covid-19". Todas as atividades programadas do Seminário do Edumatec foram canceladas e a secretaria do PPGEdumatec está atendendo as demandas dos alunos e professores remotamente. As informações sobre o funcionamento de outros setores da universidade podem ser acessadas aqui.

Se cuidem, cuidem dos outros e cuidem dos idosos e das pessoas vulneráveis!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Equilíbrio físico e mental no CIn

Na última terça coordenei uma conversa com o pessoal de uma startup no CIn/UFPE sobre o equilíbrio físico e mental. Meu exemplo sempre é o Yoga, mas existem vários caminhos possíveis na busca por uma vida mais saudável e equilibrada. Cada um deve encontrar a atividade com a qual mais se identifica e fazer escolhas que beneficiem a sua saúde física e mental. A minha jornada começou com uma tragédia na minha vida, mas ninguém precisa esperar a vida virar de cabeça para baixo para começar a mudar.

Falei sobre os assédios que sofremos diariamente, das expectativas irreais, dos nossos limites e da minha experiência (não, não foi papo coach palestrinha, Deusmelivre de dizer aos outros o que fazer na vida...). Espero que a conversa tenha sido útil e que eu possa ter ajudado um pouco na reflexão de cada um. Adorei o momento e a oportunidade de conversar com pessoas jovens que estão com todas as condições de pavimentar um futuro melhor. Gratidão pelo convite!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Adeus, 2019!

Finalmente, chegamos ao fim de um ano pesado e que pareceu durar muito mais do que apenas doze meses. Foi um ano com muitas inquietações, resistências e lutas, mas também com algumas conquistas e momentos de felicidade. Foi também um ano em que as pessoas se revelaram (para o bem e para o mal) e isso é algo que eu não lamento, mesmo que signifique algumas rupturas e distanciamentos necessários. Foi um ano de separar o joio do trigo e a cada avanço do preconceito e da injustiça, mais eu consolidava a certeza de estar lutando ao lado de uma causa justa. Nunca, nem em meus piores pesadelos, eu pensei que viveria meio século para ter que defender coisas tão óbvias como o direito das mulheres, a importância das vacinas, o absurdo do racismo e da homofobia, o formato da Terra, entre outros temas exaustivos. Definitivamente, os anos de ouro da minha adolescência (a cafona década de 1980 com ombreiras, polainas e glitter) foram muito mais liberais e tranquilos.
Fiz tantas coisas neste ano que ele deveria valer dobrado na pontuação da vida pessoal e acadêmica: comecei o ano visitando uma amiga querida que eu não via há anos, depois tirei a minha licença capacitação para trabalhar com o pessoal do CEA/UFPB e conheci muitos professores e alunos bacanas, ajudei quando fui chamada e também meti o bedelho quando não fui. Aprendi tanto que cada minuto valeu a pena: muito obrigada, Professor Euler!
Fiz uma viagem linda e adiada por tantos anos, uma viagem mágica que me trouxe de volta o prazer de viajar pelo mundo e me fez repensar o significado de férias como momento de pausa e descanso. Coordenei a organização de um evento incrível sobre tecnologia e educação, o CTRL+e 2019, com pessoas queridas que se juntaram para encantar as pessoas e multiplicar otimismo e conhecimento. Publicamos um número temático incrível sobre narrativas digitais na revista Em Teia, resultado da minha parceria e amizade com a querida Thelma Panerai.
Fortaleci amizades antigas e consolidei novas, mas também descartei o convívio com pessoas que definitivamente não valem a pena. Acompanhei o término da jornada acadêmica dos meus orientandos com um orgulho do tamanho do mundo e testemunhei a cerimônia de posse do novo reitor da UFPE, um professor do Centro de Educação que tem todo o meu apoio e admiração.
Aprofundei os meus estudos no Yoga e segui firme na minha prática, consolidando essa jornada que mudou o meu corpo e a minha vida. Senti a violência no meu espaço de trabalho e resolvi montar um projeto de extensão com aulas de Yoga para alunos, professores e funcionários. Nunca pensei que essas aulas me trariam tanta felicidade e amor!
Terminei o ano assumindo a coordenação do Programa de Pós-graduação em Educação Matemática e Tecnológica da UFPE, uma responsabilidade enorme em tempos tão difíceis e justamente no período de avaliação dos programas de pós-graduação. Foi um ano que exigiu muito de mim, mas que também permitiu que eu doasse o melhor para as pessoas que precisaram.
Finalmente, eu entendi o significado da generosidade de quem aceita o nosso apoio. Vou chegando em 2020 com um sentimento de gratidão enorme por tudo que tenho vivido e com a certeza de que é preciso ser melhor sempre. É preciso ser muito mais porque se tivéssemos feito o suficiente, não estaríamos testemunhando tanta intolerância, ódio e preconceito. Sim, falhamos e precisamos (e vamos) fazer muito mais! Se 2019 foi o ano da resistência, 2020 é o ano da esperança. Feliz ano novo para todos e todas!



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